terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O conhecido e conceituado Cirurgião de Coluna paulista Edmond Barras realizou uma importante palestra no 11º Encontro Anual OPME/DMI


O encontro foi realizado na última segunda-feira (13/02) no Hotel Maksoud Plaza - São Paulo - Capital.

AO SER CONVIDADO PARA PARTICIPAR DESSE PAINEL QUE REÚNE SOB A MESMA ÉGIDE AS PALAVRAS ÉTICA E OPME CONFESSO QUE FIQUEI SURPRESO. O PRIMEIRO PENSAMENTO QUE SURGIU NA MINHA MENTE COMO CONSEQUÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO DESSAS DUAS PALAVRAS FORAM AS NOTÍCIAS BOMBÁSTICAS QUE TEMOS VISTO QUASE QUE SEMANALMENTE NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS E QUE GANHARAM FAMA COMO A MÁFIA DAS PRÓTESES.
SE ANALISARMOS SOB ESSE PRISMA ESSAS PALAVRAS NÃO COMBINAM. PORÉM SE DEIXARMOS DE LADO OS NOTICIÁRIOS E AS PÁGINAS POLICIAIS VAMOS VER QUE HÁ UMA RELAÇÃO PROFUNDA ENTRE OPME E A NECESSIDADE DE ÉTICA, DESDE A SUA CONCEPÇÃO E FABRICAÇÃO ATÉ A SUA UTILIZAÇÃO EM SERES HUMANOS, PASSANDO POR VÁRIAS ETAPAS, TAIS COMO A SUA DIVULGAÇÃO, APRIMORAMENTO, REGULAMENTAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO.
AO FALARMOS EM ÉTICA TEMOS QUE FALAR EM COMPLIANCE.
SEGUNDO GUSTAVO LUCENA DA DELOITTE, COMPLIANCE NA ÁREA DA SAÚDE SIGNIFICA GARANTIR COMPETÊNCIA, CONHECIMENTO TÉCNICO E ADMINISTRATIVO QUE PERMITAM ATENDIMENTO ASSISTENCIAL ADEQUADO, COM QUALIDADE, HUMANIZADO, ÉTICO, COM PRECISÃO DE CUSTOS, DESTINADO AO MAIOR NÚMERO DE PACIENTES.
HOJE AS EMPRESAS DO SETOR DE SAÚDE VIVEM DIFICULDADES ADMINISTRATIVAS, FINANCEIRAS, LEGAIS E DE IMAGEM.
DENTRE AS CAUSAS DESSAS DIFICULDADES TEMOS UM SISTEMA REGULATÓRIO COMPLEXO, O ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO, O MAIOR ACESSO À SAÚDE, O ALTO CUSTO DA ASSISTÊNCIA MÉDICA, ASSOCIADAS A ADMINISTRAÇÕES POUCO PROFISSIONALIZADAS EM GESTÃO E GOVERNANÇA, POUCA EFICIÊNCIA NO PLANEJAMENTO E CONTROLE FINANCEIRO E, POR FIM, QUESTÕES ÉTICAS NAS ESFERAS ASSISTENCIAL E ADMINISTRATIVA.
A ÉTICA É UM DOS PILARES DESSA COMPLEXA ESTRUTURA QUE SE FALHAR PODE DERRUBÁ-LA POR INTEIRO.
É FUNDAMENTAL NAS EMPRESAS LIGADAS À ÁREA DE SAÚDE UM PROGRAMA DE ÉTICA E COMPLIANCE QUE DEVE TER COMO OBJETIVOS INCORPORAR O CORPO CLÍNICO NO PROCESSO DE GESTÃO, GARANTIR TRANSPARÊNCIA NO ATENDIMENTO AOS PACIENTES, INVESTIR EM CAPACITAÇÃO E NOMEAR UM RESPONSÁVEL DE ÉTICA E COMPLIANCE PARA CORRIGIR PROBLEMAS E CONDUZIR DILIGÊNCIAS E AUDITORIAS INTERNAS.
MAS VOLTEMOS ÀS OPMES.
TOMAREI A LIBERDADE DE ME DEBRUÇAR SOBRE OS IMPLANTES ORTOPÉDICOS, ESPECIFICAMENTE OS UTILIZADOS EM CIRURGIAS DE COLUNA, ESPECIALIDADE À QUAL ME DEDICO HÁ MAIS DE 40 ANOS. TIVE A CHANCE DE CONVIVER E PARTICIPAR DO SURGIMENTO DOS IMPLANTES VERTEBRAIS DE FIXAÇÃO PEDICULAR EM CIRURGIAS DE COLUNA, POIS NA DÉCADA DE 1970 TRABALHEI COM O PROF. ROY-CAMILLE, NA FRANÇA, QUE FOI O SEU IDEALIZADOR.
EVOLUÇÃO DO MERCADO DE IMPLANTES.
O MERCADO DE IMPLANTES ORTOPÉDICOS E PARTICULARMENTE DE COLUNA É RELATIVAMENTE RECENTE. FAZENDO UM BREVE APANHADO HISTÓRICO VEMOS QUE NOS ANOS 80 A QUASE TOTALIDADE DESSES IMPLANTES FORAM DESENVOLVIDOS POR ORTOPEDISTAS EUROPEUS DE RENOME MUNDIAL DENTRE OS QUAIS PODEMOS CITAR MCKEE, CHARNLEY, MULLER, JUDET, ROY-CAMILLE, COTREL E DUBOUSSET.
NAQUELA ÉPOCA OS IMPLANTES ERAM PRODUZIDOS POR EMPRESAS LOCAIS, RELATIVAMENTE PEQUENAS COMO A BENOIT-GIRARD, CERAVER, PROTEK, LINK E TACKRAY, EMPRESAS ESSAS BEM MAIS ÁGEIS EM TERMOS DE DESENVOLVIMENTO DO QUE OS SEUS CONCORRENTES AMERICANOS DA ÉPOCA, COMO A HOWMÉDICA, DEPUIS, RICHARDS E ZIMMER.
A AMPLIAÇÃO DO MERCADO ENTRE OS ANOS 80 E 90 LEVOU AO DESENVOLVIMENTO DE NOVOS IMPLANTES QUE FORAM APERFEIÇOADOS NA FRANÇA, ALEMANHA E EM MENOR ESCALA NA INGLATERRA, ITÁLIA E ESPANHA.
ESSA RÁPIDA PROGRESSÃO DO MERCADO ESTIMULOU O SURGIMENTO DE NOVAS EMPRESAS DE GRANDE PORTE COMO A B.BRAUN, SMITH & NEPHEW E STRYKER.
TAMBÉM OBSERVAMOS AQUISIÇÕES DE EMPRESAS EUROPÉIAS POR GRANDES GRUPOS AMERICANOS: DEPUIS COMPRA A TACKRAY, HOWMÉDICA A BENOIT GIRARD, DANEK A SOFAMOR E A TORNIER É COMPRADA PELA JOHNSON &JOHNSON.
A CONCENTRAÇÃO DO MERCADO NA MÃO DE POUCOS FABRICANTES TEM COMO CONSEQUÊNCIA A DIMINUIÇÃO DOS ATORES DO MERCADO MUNDIAL DE IMPLANTES PROVOCANDO UM ENORME DESEQUILÍBRIO EM FAVOR DOS GRANDES GRUPOS. ATUALMENTE CINCO EMPRESAS AMERICANAS DETÉM 70% DO MERCADO MUNDIAL.
ESSE OLIGOPÓLIO TEM UMA PREMENTE NECESSIDADE DE AMORTIZAR CUSTOS COM AQUISIÇÕES E PESQUISAS O QUE LEVOU A EXCLUSÃO DE SEUS CATÁLOGOS DE PRODUTOS MAIS BARATOS, OFERECENDO SEMPRE OS DE MAIOR VALOR.
OS RESTANTES 30% DO MERCADO MUNDIAL ESTÁ PULVERIZADO ENTRE UMA CENTENA DE EMPRESAS DE PEQUENO E MÉDIO PORTES, A MAIORIA NA EUROPA.
ESTAS EMPRESAS TEM UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO EM DESENVOLVER UM PRODUTO INOVADOR PARA SOBREVIVEREM NESSE MERCADO COMPETITIVO.
QUANDO CONSEGUEM ESSE PRODUTO, O PRÓXIMO PASSO É CONSEGUIR A APROVAÇÃO PELO FDA, JÁ QUE A CERTIFICAÇÃO CE É MUITO MAIS SIMPLES.
SE NO MERCADO EUROPEU HÁ SISTEMAS RÍGIDOS DE REGULAÇÃO DE PREÇOS, UMA VEZ PASSADA A BARREIRA DAFDA E ENTRANDO NO MERCADO AMERICANO, O PRODUTO PODE SER COMERCIALIZADO POR VALORES MUITO SUPERIORES. AO MESMO TEMPO O PRODUTO INOVADOR CHAMA A ATENÇÃO DOS GIGANTES DO SETOR E ESTES ADQUIREM A EMPRESA POR UM VALOR MUITAS VEZES MAIOR DO QUE VALE NO MERCADO LOCAL.
ESTAMOS FALANDO DE UM MERCADO QUE EM 2016 MOVIMENTOU 12 BILHÕES DE DÓLARES E ESTIMA-SE QUE CHEGARÁ EM 2020 A 15,7 BILHÕES, COM UM CRESCIMENTO ANUAL DE 5,6% CONTRA APENAS 2% DOS IMPLANTES ORTOPÉDICOS. PREVÊ-SE QUE EM 2017 O MERCADO MUNDIAL DE IMPLANTES ORTOPÉDICOS CHEGARÁ A 50 BILHÕES DE DÓLARES.
EM 2016, O MERCADO BRASILEIRO DE IMPLANTES DE COLUNA FOI DE 120 MILHÕES DE DÓLARES, 83% DO MERCADO DA AMÉRICA LATINA.
PORÉM O QUE NÃO PUDE DEIXAR DE NOTAR, QUE, DE MANEIRA UNIVERSAL, À MEDIDA QUE ESSE MERCADO SE EXPANDE, SURGEM CONDUTAS OPORTUNISTAS, AÉTICAS E MERCANTILISTAS, LIGADAS A ESSE GRANDE AVANÇO CIENTÍFICO DAS CIRURGIAS DE COLUNA. E COMO CONSEQUÊNCIA DESSA AVIDEZ POR LUCROS PASSOU A SE INDICAR MUITO MAIS CIRURGIAS DO QUE O NECESSÁRIO, ATINGINDO O ÚNICO PERDEDOR DESSE ESQUEMA: O PACIENTE.
É DIFÍCIL FALAR EM ÉTICA DENTRO DESSE CONTEXTO.
HÁ VÁRIAS ETAPAS NA CADEIA DE IMPLANTES QUE COMEÇA NA SUA CONCEPÇÃO E ACABA NA SUA UTILIZAÇÃO EM PACIENTES. NOS ELOS DESSA CORRENTE ESTÃO MÉDICOS, FABRICANTES, DISTRIBUIDORES, FORNECEDORES, ÓRGÃOS DE DIVULGAÇÃO, HOSPITAIS E FONTES PAGADORAS. A RELAÇÃO ENTRE ELES IMPLICA EM REGRAS ÉTICAS QUE NEM SEMPRE SÃO SEGUIDAS. NESSA CADEIA ONDE HÁ VÁRIOS PARTICIPANTES, SEMPRE UM ACHA QUE A FALHA ÉTICA É DO OUTRO E NÃO DELE MESMO.
NEM TODOS SÃO VILÕES, MAS NEM TODOS SÃO SANTOS!
A INDÚSTRIA
A ASSOCIAÇÃO DO MÉDICO COM A INDÚSTRIA É FUNDAMENTAL PARA O DESENVOLVIMENTO DE IMPLANTES E DISPOSITIVOS MÉDICOS POIS UM OS IDEALIZA E O OUTRO CONCRETIZA. É ANIMADOR QUE ESSA ASSOCIAÇÃO LEVE A PROGRESSOS QUE BENEFICIAM PACIENTES, REDUZINDO A MORBIDADE, O TEMPO DE INTERNAÇÃO E DE RECUPERAÇÃO.
ENTRETANTO, ÀS VEZES ESSES VÍNCULOS PODEM LEVAR A CONFLITOS DE INTERESSES QUE PODEM NÃO SER COMPATÍVEIS COM O RACIOCÍNIO LÓGICO E IMPARCIAL DO MÉDICO. PODE LEVAR TAMBÉM À CONCLUSÕES TENDENCIOSAS DE PESQUISAS E INFLUENCIAR DECISÕES CIRÚRGICAS PONDO EM RISCO A SAÚDE DOS PACIENTES, LEVANDO A PERDA DE CONFIANÇA DA POPULAÇÃO NOS MÉDICOS E NA MEDICINA. É IMPERATIVO QUE OS CIRURGIÕES MOSTREM TOTAL TRANSPARÊNCIA NO SEU RELACIONAMENTO COM AS INDÚSTRIAS E COM O MERCADO DE IMPLANTES. HÁ UMA FRONTEIRA ÉTICA QUE NÃO DEVE SER ULTRAPASSADA POIS A SAGRADA CONFIANÇA DO PACIENTE EM SEU MÉDICO PODE SER COMPROMETIDA.
REGULAMENTAÇÃO
UM OUTRO PROBLEMA ÉTICO ENVOLVE A INTRODUÇÃO NO MERCADO DE NOVOS IMPLANTES, O QUE EVENTUALMENTE OCORRE COM POUCA FISCALIZAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO. COMO CONSEQUÊNCIA A SEGURANÇA, A EFICIÊNCIA E OS EFEITOS A LONGO PRAZO NÃO SÃO SUFICIENTEMENTE CONHECIDOS ANTES DE SEREM UTILIZADOS EM PACIENTES. FREQUENTEMENTE ISTO OCORRE SEM CRITÉRIOS EMBASADOS EM EVIDÊNCIAS, SEM ESTUDOS PROSPECTIVOS OU DE RASTREABILIDADE.
AS CERTIFICAÇÕES CE E MESMO AS CONCEDIDAS PELA FDA, PRINCIPALMENTE A 510K, SÃO BASEADAS APENAS EM SIMILARIDADE. OS IMPLANTES SÃO LEVADOS AO MERCADO PELO ENTUSIASMO DOS CIRURGIÕES LARGAMENTE INFLUENCIADOS POR CAMPANHAS DE MARKETING MUITO BEM ESTRUTURADAS.
DISPOSITIVOS MÉDICOS SÃO CONJUNTOS COMPLEXOS DE VÁRIOS COMPONENTES, SENDO IMPOSSÍVEL TER A CERTEZA ABSOLUTA QUE SÃO ISENTOS DE RISCOS OU DANOS POTENCIAIS. UMA VEZ COLOCADOS NO PACIENTE NÃO PODEM ESTAR SUJEITOS A UM “RECALL” COMO UMA PEÇA DEFEITUOSA DE UM AUTOMÓVEL.
ANTES DA INTRODUÇÃO NO MERCADO OS NOVOS IMPLANTES DEVEM SER SUBMETIDOS A TESTES RIGOROSOS QUANTO À BIOCOMPATIBILIDADE, AVALIAÇÃO MECÂNICA, PERFORMANCE CLÍNICA, OPTIMIZAÇÃO DO DESENHO, DURABILIDADE E FINALMENTE A SUA REAL EFICÁCIA. TAMBÉM DEVEM TER OS RESULTADOS COMPARADOS COM OS TRATAMENTOS PADRÃO JÁ EXISTENTES.
O PACIENTE DEVE SER INFORMADO SOBRE A CONDIÇÃO DE IMPLANTE NOVO E DOS POTENCIAIS DANOS AOS QUAIS PODE ESTAR SUJEITO.
O DISTRIBUIDOR
A MAIOR PARTE DOS FABRICANTES, PRINCIPALMENTE AS GRANDES MULTINACIONAIS QUE NÃO CONHECEM OS MERCADOS LOCAIS LANÇAM MÃO DE DISTRIBUIDORES AUTÓCTONES PARA PODER VENCER A BUROCRACIA DE ÓRGÃOS REGULADORES E PARA DAR MAIS FLUIDEZ AO ESQUEMA COMERCIAL, PELA MAIOR INTIMIDADE QUE CONSEGUEM COM HOSPITAIS, MÉDICOS E FONTES PAGADORAS, MUITAS VEZES ATRAVÉS DE ESTÍMULOS FINANCEIROS, QUE OBVIAMENTE SÃO AGREGADOS AO CUSTO FINAL DO PRODUTO.
NO GRANDE ESCÂNDALO AMERICANO QUE ENVOLVEU IMPLANTES DE COLUNA NO INÍCIO DESSA DÉCADA, OS PRINCIPAIS PIVÔS FORAM OS DISTRIBUIDORES QUE TINHAM CIRURGIÕES ENTRE SEUS SÓCIOS. UMA COMISSÃO DO CONGRESSO RESTRINGIU ESSA PARTICIPAÇÃO POIS FICOU PROVADO QUE NOS HOSPITAIS QUE ERAM ABASTECIDOS POR ESSAS EMPRESAS O NÚMERO DE IMPLANTES USADOS ERA BEM MAIOR DO QUE A MÉDIA NACIONAL.
O HOSPITAL
A COMERCIALIZAÇÃO DE OPME É UMA GRANDE FONTE DE RENDA PARA OS HOSPITAIS. COMEÇA PELA TAXA DE OPERACIONALIZAÇÃO JUSTIFICADA PELOS CUSTOS DE ESTOCAGEM, ESTERILIZAÇÃO E LOGÍSTICA QUE EM ALGUNS CASOS BEIRA OS 40%.
UMA OUTRA QUESTÃO NO QUE TANGE OS HOSPITAIS É SUA RELAÇÃO COM OS PRÓPRIOS MÉDICOS. O DILEMA DO HOSPITAL É QUE EM UM GRANDE NÚMERO DE CASOS OS SEUS MÉDICOS SÃO INDIFERENTES AOS IMPERATIVOS EMPRESARIAIS DA INSTITUIÇÃO, ATRIBUINDO POUCA IMPORTÂNCIA ÀS INICIATIVAS DO HOSPITAL PARA GERENCIAR OS CUSTOS DE SUA CADEIA DE SUPRIMENTOS. OS MÉDICOS NÃO SOMENTE TEM POUCAS AFINIDADES COMERCIAIS COM OS HOSPITAIS COMO POR OUTRO LADO TEM FORTES LIGAÇÕES COM FABRICANTES E DISTRIBUIDORES DE DISPOSITIVOS MÉDICOS. IMPLANTES DE ALTA QUALIDADE MAS DE ALTO CUSTO SÃO PREFERIDOS PELOS CIRURGIÕES EM DETRIMENTO DE OUTROS MAIS SIMPLES, COM PREÇOS MUITO MAIS COMPETITIVOS E COM A MESMA FINALIDADE.
A FONTE PAGADORA
TEM HAVIDO UMA TENDÊNCIA CRESCENTE POR PARTE DAS OPERADORAS DE NEGOCIAREM DIRETAMENTE AS OPME. ESSA PRÁTICA SEM DÚVIDA DEVE PROPORCIONAR DIMINUIÇÃO DE CUSTOS, PORÉM TEM INCONVENIENTES. O MAIS SÉRIO É QUE RETIRA DAS MÃOS DO CIRURGIÃO A DECISÃO SOBRE IMPLANTES ESPECÍFICOS, JÁ QUE HÁ DIFERENÇAS MESMO ENTRE SISTEMAS COM A MESMA FINALIDADE, O QUE PODE DIFICULTAR A TÉCNICA CIRÚRGICA. NESTA FORMA DE COMERCIALIZAÇÃO OS IMPLANTES VARIARIAM CONFORME A OPERADORA E NÃO CONFORME A INDICAÇÃO CIRÚRGICA. PENSANDO MAIS ADIANTE, QUALQUER COMPLICAÇÃO CIRÚRGICA PODERÁ SER ATRIBUÍDA PELO CIRURGIÃO A IMPOSIÇÃO DE IMPLANTES DIFERENTES DAQUELES DA SUA PREFERÊNCIA.
DEVO SALIENTAR QUE NÃO IMPORTA SE AS OPME SÃO PAGAS PELO HOSPITAL OU DIRETAMENTE PELA OPERADORA SE O MÉDICO NÃO ESTIVER ENGAJADO COM ÉTICA E TRANSPARÊNCIA.
POR OUTRO LADO É FREQUENTE EM CERTAS OPERADORAS, PRINCIPALMENTE AS DE AUTOGESTÃO LIGADAS A FUNDOS DE PENSÃO, A EXISTÊNCIA DE ELEMENTOS QUE TAMBÉM FAZEM PARTE DO ESQUEMA, FACILITANDO AUTORIZAÇÕES CIRÚRGICAS COM IMPLANTES ACIMA DE NÍVEIS RAZOÁVEIS.
DEVE-SE TRANSFERIR AOS HOSPITAIS A PREOCUPAÇÃO COM OS CUSTOS DAS OPME. AS OPERADORAS DEVEM ATUAR COMO COMPRADORAS DE SERVIÇOS E NÃO COMO MERAS PAGADORAS.
A DIVULGAÇÃO
UM OUTRO ASPECTO IMPORTANTE ENVOLVE A DIVULGAÇÃO DOS IMPLANTES.
NORMALMENTE ELA SE DÁ ATRAVÉS DE PUBLICAÇÕES MÉDICAS ESPECIALIZADAS OU EM REUNIÕES E CONGRESSOS MÉDICOS.
OS MÉDICOS, AO FAZEREM DIVULGAÇÕES, DEVEM OBRIGATÓRIAMENTE RELATAR EVENTUAIS CONFLITOS DE INTERESSES. ISSO LEVA A FORMAÇÃO DE UMA LIVRE-OPINIÃO DE QUEM LÊ OU OUVE E PERMITE UMA AVALIAÇÃO MAIS CRÍTICA DOS RESULTADOS.
TEM HAVIDO CASOS EM QUE UM AUTOR CRITICA UM DETERMINADO IMPLANTE OU TÉCNICA POIS MANTÉM VÍNCULOS COM UM FABRICANTE CONCORRENTE.
ENTRETANTO A DIVULGAÇÃO DE CONFLITOS DE INTERESSES NÃO SE APLICA AOS EDITORES DE REVISTAS CIENTÍFICAS. VÁRIAS PUBLICAÇÕES TÊM DEMONSTRADO TENDÊNCIAS NOS PROCESSOS DE REVISÃO DE ARTIGOS COMO CONSEQUÊNCIA DESSES CONFLITOS. NÃO É INCOMUM O COMITÊ EDITORIAL REJEITAR UM CERTO MANUSCRITO POR MANTER LIGAÇÕES FINANCEIRAS COM FABRICANTES DE PRODUTOS SIMILARES.
REVISTAS MÉDICAS DEVEM SE EMPENHAR EXAUSTIVAMENTE PARA ASSEGURAR A INTEGRIDADE DE SUAS PUBLICAÇÕES.
O MÉDICO
JÁ RELATAMOS ANTERIORMENTE A IMPORTÂNCIA DO MÉDICO E O SEU RELACIONAMENTO COM A INDÚSTRIA PARA O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS IMPLANTES.
HÁ UM OUTRO LADO QUE É MUITO MAIS COMPLEXO DO PONTO DE VISTA ÉTICO. SÃO AS COMISSÕES QUE O CIRURGIÃO RECEBE DE FABRICANTES E PRINCIPALMENTE, DE DISTRIBUIDORES E FORNECEDORES PARA USAR SEUS IMPLANTES.
O MÉDICO É O ÚNICO ELEMENTO PRESENTE EM TODA A CADEIA DE TRATAMENTO DE UM PACIENTE DESDE A PRIMEIRA CONSULTA ATÉ A ALTA. É TAMBÉM O ÚNICO ELEMENTO QUE TEM AUTONOMIA COMPLETA SOBRE AS CONDUTAS A SEREM TOMADAS SEJAM ELAS ADEQUADAS, OU NEM TANTO. O PODER DECISÓRIO CONCENTRADO EM UMA ÚNICA PESSOA PODE LEVAR A CONDUTAS DIVERSAS DEPENDENDO DA SUA FORMAÇÃO, DA ORIENTAÇÃO DA ESCOLA A QUAL PERTENCE, DA SUA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA E, EM ALGUNS CASOS, DE OUTROS FATORES NEM SEMPRE ÉTICOS.
O MÉDICO AO SER CREDENCIADO PARA ATENDER OS PACIENTES DE UMA OPERADORA DE SAÚDE DEVE SEGUIR DIRETRIZES BASEADAS EM EVIDÊNCIAS MÉDICAS. NOS ESTADOS UNIDOS AS GRANDES SEGURADORAS ELABORARAM MANUAIS QUE ORIENTAM O MÉDICO NA SUA CONDUTA. ESSAS DIRETRIZES NÃO SÃO IMPOSIÇÕES DE TRATAMENTO, POIS ESTE É PECULIAR A CADA PACIENTE DENTRO DO MESMO GRUPO DE PATOLOGIAS. BASTAM ESSAS REGRAS PARA QUE UMA PARCELA IMPORTANTE DE CONFLITOS SEJA EVITADA NO DECORRER DO TRATAMENTO.
UMA PROPOSTA CONCRETA
NA MESMA LINHA DE PENSAMENTO OS HOSPITAIS DEVEM UNIR E AGREGAR OS SEUS MÉDICOS DENTRO DA FILOSOFIA DE SEGUIR AS DIRETRIZES DA MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIAS. A FORMAÇÃO DE COLEGIADOS INSTITUCIONAIS PARA UMA SEGUNDA OPINIÃO É FUNDAMENTAL.
QUAIS INDICAÇÕES CIRÚRGICAS, QUAL A MELHOR TÉCNICA, QUAIS OS IMPLANTES A SEREM UTILIZADOS, EMERGIRIAM DE UM CONSENSO, COM BENEFÍCIOS ENORMES PARA OS PRÓPRIOS MÉDICOS, PARA OS HOSPITAIS, PARA AS OPERADORAS E PRINCIPALMENTE PARA OS PACIENTES.
JÁ HÁ HOSPITAIS QUE ADOTARAM ESSE SISTEMA. O ALBERT EINSTEIN DESENVOLVE UM PROJETO DESDE 2011 DESTINADO AOS SEGURADOS DO BRADESCO. DESDE AQUELA DATA OBSERVOU-SE QUE 58% DAS CIRURGIAS INDICADAS NÃO ERAM NECESSÁRIAS. NAS DEMAIS 42% QUE TIVERAM CONFIRMADA A INDICAÇÃO CIRÚRGICA HOUVE UMA REDUÇÃO SIGNIFICATIVA DE IMPLANTES EM RELAÇÃO À INDICAÇÃO ORIGINAL. ENTRE 2011 E 2015 NOS QUASE TRÊS MIL PACIENTES AVALIADOS HOUVE UMA ECONOMIA DE MAIS DE CEM MILHÕES DE REAIS PARA A OPERADORA.
ESTA ENORME ECONOMIA SE DEVE A DOIS FATORES. EM PRIMEIRO LUGAR ELIMINANDO AS CIRURGIAS DESNECESSÁRIAS. EM SEGUNDO LUGAR REDUZINDO O CUSTO DOS MATERIAIS DE IMPLANTE QUE PASSARAM A SER COMPRADOS COM UM DESCONTO DE ATÉ 70%. É SIGNIFICANTE ESTE DESCONTO POIS NA REALIDADE CORRESPONDE A COMISSÕES QUE SÃO PAGAS NA CADEIA DE DISTRIBUIÇÃO A VÁRIOS ELEMENTOS: MÉDICOS, COMPRADORES, FUNCIONÁRIOS DE FONTES PAGADORAS E A OUTROS ELEMENTOS QUE “FACILITAM” A COMERCIALIZAÇÃO. A FRASE QUE MAIS SE OUVE DOS FORNECEDORES DE OPME É A SEGUINTE: “SE EU NÃO PAGO, NÃO VENDO”.
NA BENEFICÊNCIA PORTUGUESA DE S. PAULO ESTAMOS IMPLANTANDO UM PROGRAMA SEMELHANTE AO DO EINSTEIN. O DIFERENCIAL DO NOSSO PROGRAMA É QUE OS PACIENTES AVALIADOS PELO COLEGIADO SÃO ORIGINÁRIOS DOS CONVÊNIOS ATENDIDOS PELO PRÓPRIO HOSPITAL. ELES SÃO APRESENTADOS AO COLEGIADO PELO ESPECIALISTA QUE OS ATENDEU; OS CASOS SÃO DISCUTIDOS POR TODOS, OPTANDO-SE PELA MELHOR INDICAÇÃO SEJA PARA TRATAMENTO CONSERVADOR OU CIRÚRGICO. SENDO CIRÚRGICO, ELES SÃO OPERADOS, SEMPRE DE ACORDO COM A CONDUTA CONSENSUAL DO GRUPO.
HÁ ALGUMAS DIFICULDADES A SEREM SUPERADAS PARA UM PROGRAMA DESSE TIPO. A PRIMEIRA É CONVENCER OS CIRURGIÕES A MUDAREM DE ATITUDE, DADO QUE O SER HUMANO É RESISTENTE A MUDANÇAS. A SEGUNDA É FALAR AO PACIENTE QUE A INDICAÇÃO DA SUA CIRURGIA DEVERÁ SER RATIFICADA POR UM COLEGIADO. CONTRARIAMENTE À IMPRESSÃO INICIAL, ESSE FATO É MUITO BEM ACEITO PELOS PACIENTES; TALVEZ MAIS DO QUE PELOS PRÓPRIOS CIRURGIÕES.
É FUNDAMENTAL ESTABELECER DIRETRIZES E PROTOCOLOS QUE VÃO DESDE A SOLICITAÇÃO DE EXAMES COMPLEMENTARES ATÉ AS QUE REGEM OS TRATAMENTOS CONSERVADOR OU CIRÚRGICO.
AS REUNIÕES ELEVAM O NÍVEL CIENTÍFICO DAS DISCUSSÕES E FAZ COM QUE O MÉDICO QUE FEZ A INDICAÇÃO ORIGINAL SEJA BEM MAIS PRUDENTE POIS DEVERÁ DEFENDER A SUA INDICAÇÃO DIANTE DE UM COLEGIADO.
PARA FINALIZAR, NEM SEMPRE É FÁCIL CONVENCER OS CIRURGIÕES QUE É MELHOR UM HONORÁRIO CORRETO E HONESTO AINDA QUE EM VALORES ABSOLUTOS MENOR DO QUE OS INCENTIVOS FINANCEIROS QUE RECEBERIA DO FORNECEDOR DA OPME.
UMA VEZ CONCLUÍDA A ESTRUTURA MÉDICA, DUAS FASES SÃO DECISIVAS.
UMA, É CHEGAR A UM DENOMINADOR COMUM EM RELAÇÃO AO TEMPO DE SALA DE CIRURGIA, DIÁRIAS DE UTI E APARTAMENTO, MEDICAMENTOS, EXAMES, HEMOTERAPIA, PARA QUE SE POSSA PRECIFICAR A INTERNAÇÃO HOSPITALAR.
A OUTRA É A NEGOCIAÇÃO COM OS FORNECEDORES, POIS O PACOTE A SER OFERECIDO À OPERADORA SÓ SERÁ VIÁVEL SE OS PREÇOS DOS IMPLANTES ESTIVEREM EM PATAMARES RAZOÁVEIS.
POR MAIS INCRÍVEL QUE PAREÇA ESTA PARTE ENCONTRA GRANDES DIFICULDADES. AFINIDADES ENTRE OS FORNECEDORES E CERTOS SETORES DOS HOSPITAIS SÃO FORTES EMPECILHOS. DEVE-SE DESMONTAR HÁBITOS JÁ EMBUTIDOS NA COMERCIALIZAÇÃO. DEVEM SER SELECIONADOS POUCOS FORNECEDORES, TRÊS OU QUATRO QUE POSSAM SUPRIR 95% DOS IMPLANTES E, SE NECESSÁRIO LANÇAR MÃO DE FORNECEDORES NOVOS QUE NÃO TENHAM AFINIDADES NEM COM MÉDICOS, NEM COM FUNCIONÁRIOS ADMINISTRATIVOS.
REDUZINDO O NÚMERO DE FORNECEDORES ELES GANHARÃO POR VOLUME DE VENDAS, ESTANDO ISENTOS DAS COMISSÕES QUE PAGAM PARA QUE OS SEUS  MATERIAIS SEJAM UTILIZADOS. SOMENTE EM RELAÇÃO À PARTE DO MÉDICO ESTA COMISSÃO VARIA DE 30 A 40%.
PODE ATÉ SER ÚTIL ESTABELECER UM CANAL DE COMPRAS DIFERENTE DO HABITUAL E QUE SE DESTINE APENAS ÀS NEGOCIAÇÕES DE OPME.
MESMO COM DESCONTOS PRÓXIMOS A 70% O PREÇO PRATICADO É SUPERIOR AO TETO IMPOSTO PELOS PAÍSES QUE ADOTARAM O SISTEMA T2A.
OS PRÓPRIOS FORNECEDORES ESTÃO SE DANDO CONTA QUE O ESQUEMA ATUAL DE COMERCIALIZAÇÃO ESTÁ COM OS DIAS CONTADOS.
ORGANIZAR PACOTES CIRÚRGICOS ONDE A CONTA HOSPITALAR FIQUE ENTRE 55 E 60% DO TOTAL, IMPLANTES ENTRE 20 E 25% E HONORÁRIOS MÉDICOS EM 20%, OS EQUALIZARIA ÀS PROPORÇÕES INTERNACIONAIS.
A VERBA PARA A CORREÇÃO DOS HONORÁRIOS MÉDICOS, ATUALMENTE ANORMALMENTE BAIXOS, VIRIA DA ECONOMIA COM OS IMPLANTES, NÃO ELEVANDO O CUSTO TOTAL DO PACOTE.
INSISTO QUE A SOLUÇÃO MAIS RÁPIDA E EFICAZ PARA OS PROBLEMAS DAS OPME NAS CIRURGIAS DE COLUNA ESTÁ MAIS NAS MÃOS DO MÉDICO DO QUE EM QUALQUER OUTRA PEÇA DESSA COMPLEXA ENGRENAGEM.
SE ESPERARMOS QUE A SOLUÇÃO DO GRANDE PROBLEMA DAS OPME VENHA DE ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS, AGÊNCIAS REGULADORAS OU QUALQUER OUTRO ÓRGÃO OFICIAL, ESSA PROBLEMÁTICA IRÁ SE ARRASTAR POR UM TEMPO INTERMINÁVEL O QUE É RUIM PARA OS SETORES DE SAÚDE MAS É MUITO PIOR PARA O PACIENTE, PARA QUEM O PREJUÍZO NÃO É SOMENTE FINANCEIRO MAS FÍSICO E EMOCIONAL.
O COMPORTAMENTO ÉTICO DE CADA UM DE NÓS QUE FAZEMOS PARTE DA CADEIA DAS OPME, DESDE O FABRICANTE ATÉ O MÉDICO, É IMPERATIVO PARA A MORALIZAÇÃO DO SISTEMA ATUAL.
Dr. Edmond Barras - Cirurgião de Coluna do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo/Capital

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